Entrevista exclusiva – Ray Sefo

Nos muitos capítulos da história do K-1, o nome Ray Sefo sempre foi denominador comum para qualquer equação do tipo luta + irreverência. O estilo aguerrido, focado no boxe e temperado com as performances diferenciadas do lutador neozelandês conquistou fãs no mundo todo, e o mantém na ativa até hoje como um dos atletas mais carismáticos do evento japonês.

Aos 39 anos e atualmente radicado em Las Vegas (EUA), Sefo segue repleto de compromissos profissionais e não quer saber ainda de aposentadoria. Atualmente, se prepara para a luta contra o romeno Inout Iftimoaie, dia 21 de maio, pela etapa do K-1 World Grand Prix em Bucareste (Romênia).

Nesta entrevista exclusiva, o experiente atleta fala um pouco sobre a vivênciade quase 100 combates no cartel, os treinos com a equipe de Randy Couture, planos no MMA e muito mais.

Como estão os treinos para a próxima luta? Já tem a estratégia principal em mente?

O preparo está ótimo e dentro do cronograma. Em termos de tática, será bem simples. É subir no ringue e ir forte. Depois de tantos anos, não tem mais o que complicar. Acho que o adversário também se enquadra nessas características. Assim, espero o de sempre: empolgação, espontaneidade e mais uma vitória.

Já que a simplicidade vai ser a linha de conduta, podemos esperar um Ray Sefo mais comportado e contido nesse compromisso? Lutar na casa do adversário (em Bucareste, na Romênia) teria alguma influência nisso?

O que você quer dizer com mais comportado e contido ‘desta vez’? Sempre sou assim, meu amigo! Brincadeira. Só vou lá e faço meu trabalho no estilo Ray Sefo de ser. Adoro a performance que acompanha este esporte, e sempre dou aos fãs o que eles esperam quando estou no ringue. Salvo as devidas proporções, quero ser lembrado algum dia como um dos seguidores de Muhammad Ali, Sugar Ray Leonard e outros malucos do gênero. É nesse quadro de personalidade que me encaixo.

Por falar nisso, como um dos ‘reis da performance’ do K-1 viu a luta de Anderson Silva contra Demian Maia no UFC 112? Toda a polêmica teve fundamento?

Os dois são excelentes. Mas naquela noite, Anderson parecia fora de foco. Não sei se necessariamente exagerou. Chamar (o oponente) para entrar na luta e tentar desconcentrá-lo faz parte de todo ‘circo’, cara. Nesse caso, parece que houve xingamentos e ofensas pessoais. Isso já leva as coisas para outro patamar. Anderson não lutou da forma como as pessoas esperavam e assim deu margem para a avalanche de críticas, o que é compreensível. Quando se está no topo, sempre esperam algo mais de você. E se isso não acontece, as cobranças vêm ainda mais intensas.

Você treina atualmente com a equipe de Randy Couture (Xtreme Couture). Como aconteceu esse contato?

Nos conhecemos em um restaurante na esquina de casa (em Las Vegas), por amigos em comum. Conversamos imediatamente sobre a parceria com os treinos. Randy é viciado nisso. Ele me convidou para conhecer a academia, e desde então fico por lá em tempo integral. Couture é realmente uma máquina de combate. É o típico cara que realmente ama o que faz. É muito engraçado vê-lo ‘amassar’ jovens lutadores que pensam que treinam duro e dão conta de qualquer recado.

E a ideia de aumentar o cartel no MMA ainda está nos seus planos? (Sefo tem duas lutas e duas vitórias na modalidade)

Com certeza. Tenho luta pré-agendada para 17 de julho (provavelmente no Japão), e outra no Strikeforce, para o fim de agosto. Mas por agora o foco é outro, tem de ser uma coisa de cada vez e bem planejada. Não sou mais garotão, sei das minhas limitações. Preciso incorporar elementos ao meu jogo no chão até ficar bom o suficiente. Aí posso até pensar em me colocar na briga por algum título. E não digo isso com arrogância. Sou um lutador que vive para se manter sempre entre os melhores. É isso que me mantém na ativa durante todos esses anos.

Você acompanhou de perto a carreira – e se tornou grande amigo – dos brasileiros Glaube Feitosa e Francisco Filho. Como você vê agora a jornada de Ewerton Teixeira no K-1. Ele tem condições de ir além dos antecessores?

Glaube e Filho são como irmãos para mim. São grandes atletas, com estilos de peculiaridades interessantes, além de muito talento. Teixeira vem da mesma escola. Mas agora está na fase de maturação para o kickboxing/K-1. Ele ainda tem muito o que aprender com a vivência no ringue.

Ray, pelos seus planos você ainda parece longe de aposentadoria. Podemos então prever uma reedição daquele combate épico contra seu conpatriota Mark Hunt (2001), com muita provocação de ambos os lados e aquela pancadaria insandecida com a guarda baixa?

Olha, não sei se isso aconteceria de novo, são outros tempos. A não ser que algum promotor se proponha a injetar uma grana pesada para tentar convencer nós dois a ter aquela coragem de novo. Talvez em uma nova luta façamos algo totalmente diferente. Quando você tem dois samoanos no mesmo ringue, qualquer coisa maluca pode acontecer.

Os fãs japoneses são malucos por natureza. Qual a coisa mais engraçada que você já viu por lá nesse sentido?

Eles são os melhores e mais dedicados (fãs) do mundo. Acho que a coisa mais bizarra que vi por lá aconteceu em um evento do Pride. O Inoki (Antonio, lendário promotor de lutas nipônico e ex-lutador) estava na beira do ringue. As pessoas passavam perto e praticamente suplicavam para que lhes esbofeteasse a cara. É um tipo de tradição. Quando ele faz isso, consideram um tipo de batismo de boa sorte. Ele ‘enchia a mão’. Foi bordoada para todo lado. E quem apanhava ainda agradecia.